Professor da USP prevê IA 'cientista' e sistemas com visão de mundo em 2026

Depois de um 2025 em que a inteligência artificial se tornou impossível de ignorar, 2026 tende a ser o ano em que ela ficará difícil de enquadrar, avalia um professor livre-docente de IA da Faculdade de Saúde Pública da USP. Em análise, ele afirma que duas frentes devem elevar a tecnologia a um novo patamar: a “IA cientista” e sistemas com “visão de mundo”.
O pesquisador relembra que, no fim de 2024, a aposta dominante no setor era que 2025 seria “o ano dos agentes”. Ele, porém, previu um cenário mais bagunçado, com aceleração em IAs de raciocínio, vídeo e robótica — e diz que foi o que se viu ao longo do ano. Os chamados agentes apareceram, mas, segundo ele, ainda estão numa fase inicial, mais promissora do que transformadora, com impacto menor do que se imaginava.
Para 2026, a primeira mudança esperada é a “IA cientista”. Até aqui, destaca, os sistemas têm ajudado a acelerar tarefas científicas já conhecidas — como resumir literatura, sugerir hipóteses e auxiliar no desenho de experimentos. A expectativa agora é diferente: começar a ver casos em que algoritmos façam descobertas científicas relevantes sem supervisão humana direta.
Isso deve ser raro e ruidoso, pondera, mas uma única descoberta realmente importante já seria suficiente para começar a mudar o mundo. A segunda mudança apontada é a “IA com visão de mundo”. Hoje, modelos já veem imagens, ouvem sons e descrevem cenas.
O salto, segundo o professor, virá quando forem capazes de integrar física, visão e áudio de forma coerente para compreender o funcionamento do mundo físico: saber que um copo cai, que superfícies têm atrito, que o som muda quando um objeto bate, que ações têm consequências e que o tempo importa.
Com essa compreensão incorporada, a robótica tende a se tornar mais confiável e as simulações, muito mais realistas. Esses avanços, afirma, terão um efeito inevitável no debate sobre a inteligência artificial geral (AGI). Em 2025, a discussão sobre a fronteira de uma inteligência generalizável ganhou peso; em 2026, muita gente deverá concluir que já chegamos lá.
Na avaliação do professor, a maioria poderá terminar o ano dizendo que a AGI foi atingida — e, em seguida, minimizar um debate que parecia central no ano anterior. Paralelamente, o ciclo de notícias deve manter o roteiro de decretar, mês a mês, que a “IA é uma bolha”.
Pesquisador e professor da área desde 2015, ele recomenda ignorar o ruído. Na sua leitura, previsões alarmistas funcionam mais como um tranquilizante para quem teme a mudança do que como análise. Até aqui, diz, a realidade tem sido pouco gentil com os céticos — e, se a IA começar a agir e a descobrir por conta própria em 2026, o abismo entre ceticismo e prática ficará ainda mais evidente.
