Debate na Brazil Conference expõe descompasso entre base digital e uso de serviços públicos no Brasil

O Brasil construiu uma robusta infraestrutura digital, mas ainda não converte esse avanço em impacto amplo sobre a vida das pessoas. Esse foi o diagnóstico apresentado na última semana em um painel sobre inovação pública na Harvard University, durante a Brazil Conference, em Cambridge, Massachusetts.
A provocação que guiou a conversa foi direta: ciência ou slogan? Quando a tecnologia passa a comandar a inovação pública? Segundo dados debatidos no encontro, o ultrapassou 130 milhões de usuários e contabiliza bilhões de acessos anuais. O Conecta, por sua vez, realizou mais de 1,1 bilhão de transações de dados entre órgãos públicos, com economia superior a R$ 6 bilhões.
Apesar disso, apenas 38,8% da população utiliza serviços públicos digitais, de acordo com o IBGE — sinal de um descompasso entre a infraestrutura disponível e o efeito percebido pelos cidadãos. Esse hiato aparece com nitidez em áreas essenciais, conforme apontado pelos participantes.
Na saúde, o país gasta cerca de 9% do PIB, segundo o Banco Mundial, mas convive com exames duplicados, filas e internações evitáveis. Na educação, a queda de matrículas não foi acompanhada por reorganização da rede, o que gerou estruturas ociosas e baixa eficiência.
Na infraestrutura, mais de 60% das rodovias apresentam problemas, de acordo com a CNT, pressionando custos logísticos, riscos de acidentes e o tempo de deslocamento. “O dado existe, a tecnologia existe, a decisão ainda falha”, resumiu um dos debatedores. Minas Gerais foi citada como um retrato desse desafio.
O Estado lidera a produção mundial de nióbio, insumo estratégico para ligas metálicas de alta resistência usadas em setores como energia, infraestrutura e indústria de ponta, com uma cadeia produtiva que ultrapassa 160 etapas industriais em Araxá. Trata-se de um dos arranjos mais sofisticados da mineração global, com alto grau de conhecimento técnico incorporado.
Ainda assim, prevalece o padrão de exportar valor agregado intermediário e internalizar pouco da cadeia mais avançada, enquanto persistem gargalos básicos em mobilidade, saúde e infraestrutura. Para os debatedores, o problema não é falta de riqueza nem de tecnologia, mas de articulação entre produção, ciência e política pública.
No campo institucional, o potencial mineiro também foi destacado. Há ativos consistentes, como a Fapemig no financiamento à pesquisa aplicada, universidades como UFMG, UFU e UFV na formação de capital humano qualificado e ambientes como o BH-TEC e o tecnoPARQ conectando ciência e mercado.
Apenas no tecnoPARQ, mais de 160 empresas apoiadas geraram centenas de empregos e faturamento de dezenas de milhões de reais, traduzindo inovação em renda, retenção de talento e desenvolvimento regional. Na avaliação apresentada no painel, esse potencial ainda não foi convertido em política pública em escala e segue pouco articulado aos grandes desafios do Estado.
Um dos participantes — professor, mestre em Cidades e doutorando em Direito — relatou ter tratado inovação como instrumento de gestão e de resultados ao longo de sua trajetória.
Como subsecretário de Estado da Juventude de Minas Gerais, entre 2011 e 2014, disse ter participado da criação do Observatório da Juventude, que integrou dados territoriais, um índice de vulnerabilidade juvenil e mais de 80 programas públicos, reduzindo sobreposições e qualificando a alocação de recursos.
Já como vereador de Belo Horizonte, entre 2017 e 2024, afirmou ter desenvolvido plataformas como Meu Vereador, Nosso Mandato e Tem Meu Voto. Na síntese dos participantes, o caminho passa por transformar dados e sistemas em decisões que evitem desperdícios, melhorem serviços e reduzam filas — em outras palavras, fazer da tecnologia um meio para resolver problemas concretos, e não um fim em si mesma.
