Com 1.039 mortes em 24 h, Brasil supera EUA e lidera óbitos diários por Covid-19

O Brasil registrou 1.039 mortes por Covid-19 nas últimas 24 horas e se tornou o país com mais óbitos pela doença em um único dia. Com isso, o total de vítimas chegou a 24.512, segundo os dados mais recentes do Ministério da Saúde. O balanço também indica 391.222 diagnósticos confirmados, com 16.324 novas infecções entre ontem e hoje.
Pela primeira vez, o Brasil superou os Estados Unidos no registro diário de mortes por Covid-19. O levantamento do CDC norte-americano aponta 592 óbitos confirmados desde ontem. Enquanto a taxa americana vem diminuindo, a brasileira segue em aceleração. A evolução da pandemia seguiu trajetórias distintas.
Os EUA registraram o primeiro caso em 1º de janeiro, e a primeira morte em 3 de março. O país passou semanas sem notificar novos casos até que, na segunda metade de março, os números explodiram, com mais de mil confirmações diárias — o mesmo se repetiu com os óbitos.
O início aparentemente contido tem sido atribuído à subnotificação, já que faltavam testes e a doença foi ignorada pelo governo durante semanas. No Brasil, o primeiro caso foi identificado rapidamente — embora haja suspeitas de circulação anterior — e, no começo, cada resultado positivo foi contabilizado.
Com a falta de materiais, os exames foram restringidos aos casos graves e a profissionais de saúde. Há atrasos de até dois meses na notificação de mortes. Enquanto as curvas americanas começaram a desacelerar com picos no início de maio, as brasileiras ainda estão em fase de aceleração.
Após três meses, até ontem, o Brasil acumulava 375 mil casos, atrás apenas dos EUA no mesmo estágio da pandemia. Desse total, 121 mil foram registrados na última semana. Na mesma fase, só os EUA tiveram aceleração maior, com 204 mil novos casos semanais nos primeiros 90 dias.
Reino Unido somava 32 mil, Itália 18 mil, Rússia 41 mil, e Espanha e França estavam na casa dos 13 mil. Um estudo da Universidade de Pelotas indica que, nos dois primeiros meses, os números brasileiros permaneceram abaixo dos europeus — a disparada ocorreu no último mês, quando outros países já começavam a desacelerar.
"Esse é o problema maior: não sabemos se já atingiu o auge [da epidemia no Brasil]", avaliou o epidemiologista Pedro Halal, que lidera a pesquisa sobre a real disseminação do novo coronavírus no país. O impacto emocional do avanço da doença também aparece no relato de brasileiros que vivem nos EUA.
"Meu coração fica muito apertado pelo Brasil, estou muito preocupada com a minha família... aqui é um país de primeiro mundo, tem alguma estrutura. Fico em desespero por minha família e por meus amigos, porque [o Brasil] é um país despreparado, e todos estão em perigo", disse Cibele Abreu, que mora nos Estados Unidos desde 1997.
No recorte de óbitos, até ontem o Brasil registrava 6.681 novas mortes por semana, mais de 900 em média por dia. No mesmo estágio da epidemia, o Reino Unido tinha 3.500 óbitos semanais, a Espanha 2.540 e a França 5 mil. A exceção eram os EUA, com 11 mil por semana.
No Brasil, as mortes dobram, em média, a cada 6,5 dias — a duplicação mais rápida entre os países analisados, segundo o projeto da Fiocruz Monitora Covid. Tanto EUA quanto Brasil têm dimensões continentais e desigualdade social profunda, o que se reflete em diferenças raciais e expõe a maior vulnerabilidade dos mais pobres — principais vítimas da pandemia nos dois países.
Nos Estados Unidos, os distritos mais letais estão em Nova York, o estado mais afetado. Com a curva brasileira ainda em ascensão e sinais de subnotificação, especialistas apontam que o comportamento da pandemia no país continuará a depender da capacidade de ampliar testes, reduzir atrasos nas notificações e adotar medidas de contenção de forma consistente.
